26 de março de 2026

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A realidade crua do agro

O movimento reflete as dificuldades financeiras enfrentadas por produtores de médio e pequeno porte, mesmo em regiões com forte desempenho agrícola...

Publicado em 02/01/2026 às 03:34 | Por: Vandré Dubiela


A realidade crua do agro

@ Divulgação

O agronegócio brasileiro tem registrado aumento nos pedidos de recuperação judicial nos últimos anos, especialmente entre produtores rurais pessoas físicas. O movimento reflete as dificuldades financeiras enfrentadas por produtores de médio e pequeno porte, mesmo em regiões com forte desempenho agrícola, como o Paraná. Em conversa com o colunista, a advogada com atuação no Direito do Agronegócio, Kharin Wochner, de Marechal Cândido Rondon, explica que o crescimento dessas solicitações é observado de forma gradual. Para ela, o cenário é resultado de uma combinação de fatores econômicos. O aumento significativo nos custos de produção — especialmente de insumos, fertilizantes e defensivos — tem pressionado o caixa dos produtores. Ao mesmo tempo, commodities importantes como soja, milho e trigo registraram queda nos preços, reduzindo a margem de lucro nas propriedades. Outro fator relevante é o encarecimento do crédito rural. Boa parte das instituições financeiras passaram a exigir mais garantias, reduzir prazos e elevar as taxas de juros diante do aumento da inadimplência no setor.


Seguro paramétrico

Os rumos da política de seguro rural no Brasil preocupado o setor e entidades do segmento, como a Apepa (Associação Paranaense de Planejamento Agropecuário). Para a entidade, a alternativa ventilada encolhendo o seguro paramétrico, dificulta a ampliação da cobertura no campo, que hoje atende cerca de 5% da área agrícola brasileira. De acordo com o diretor-técnico da Apepa, o Engenheiro Agrônomo, Lucas Schauff, o sistema ainda não está totalmente adaptado à realidade do campo. “A quantidade de chuva registrada nem sempre corresponde à perda real da lavoura, pois fatores como tipo de solo e variedade cultivada influenciam diretamente na produtividade”, explica. Para Schauff, o seguro convencional, baseado na produtividade, é atualmente o modelo mais consolidado e deveria ser aprimorado, inclusive com a ampliação de coberturas, como perdas na qualidade dos grãos causadas por excesso de chuva.


Muito mais que fonética

Paraná e Canadá. A fonética chega a soar similar. Muitos mais do que isso, ambos também contam com um sistema cooperativista robusto. Recentemente, o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, recebeu uma comitiva de diretores e associados da Hensall Co-op, cooperativa criada em 1937 por um grupo de agricultores do Condado de Huron.  A comitiva foi liderada pelo presidente da Hensall Co-op, Theodorus van Miltenburg. Na oportunidade, o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, apresentou um panorama do agronegócio brasileiro e destacou a taxa de crescimento anual do setor, de 5%, números que saltaram aos olhos dos canadenses. O dirigente cooperativista do Paraná abordou ainda a posição do Brasil como um dos países que mais preservam os recursos naturais no mundo, com 60% de seu território preservado.


Máquinas em queda livre

O faturamento do setor de máquinas e implementos agrícolas caiu 7% nos últimos seis meses na comparação com o mesmo período do ano anterior, sinalizando um ambiente mais desafiador para a indústria. Os dados foram apresentados pela Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq durante a Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul. De acordo com o presidente da Câmara de Máquinas e Implementos Agrícolas, Pedro Estevão Bastos, apenas em janeiro de 2026 o faturamento recuou 15,6%. Entre os fatores que pressionam o mercado estão a alta inadimplência no campo, maior rigor na concessão de crédito, juros elevados e a queda nos preços das commodities. Diante desse cenário, muitos produtores têm priorizado a compra de insumos, deixando em segundo plano os investimentos na renovação de máquinas e equipamentos. Para 2026, a expectativa inicial é de retração de cerca de 8% no faturamento do setor, com viés de baixa.


Sobrou até para a carne

O conflito no Oriente Médio começa a lançar sombras também sobre o mercado brasileiro de carne bovina. O que até pouco tempo era um cenário de valorização consistente da proteína no comércio internacional passou a conviver com um clima de cautela — e até de especulação — entre exportadores e produtores. Em conversa com o colunista, o presidente da Padrão Beef e ex-presidente da Sociedade Rural do Oeste do Paraná, Lindonez Rizzotto, resume bem o momento. “Estávamos em um viés de alta, mas após o início do conflito houve paralisação de algumas exportações e já observamos um movimento de queda”. Não se trata, por ora, de um impacto estrutural. O Oriente Médio representa cerca de 10% das exportações brasileiras de carne bovina, algo próximo de 205 mil toneladas ao ano. Ainda assim, a região tem peso estratégico para o setor, especialmente no embarque de animais vivos. Em tempos de tensão geopolítica, logística e mercado caminham lado a lado — e qualquer ruído costuma repercutir rapidamente nos preços.