31 de agosto de 2025

Cascavel

Fale conosco

Cascavel

Bariátrica: a esperança de quem luta por saúde

Kelly, Valéria, Thaisi — histórias reais que reforçam: obesidade é, sim, questão de Saúde Pública

Foto: Divulgação/Shutterstock

Imagine um mundo não idealizado para você. Os passos são lentos, a cabeça vislumbra, mas o corpo não responde com a mesma agilidade. A ânsia por mudança é imediatamente bloqueada pelo questionamento: mas, afinal, será possível?

Viver e conviver com a obesidade é também lidar com a incerteza: será que existe a tal luz no fim do túnel? Ou ainda, será que alguém terá disponibilidade e paciência para acompanhar todo o trajeto até alcançar esse foco de esperança que parece tão distante?

Todos esses questionamentos não são pensamentos isolados — longe disso. Cada vez mais pessoas se deparam com a sensação de que o “limite” chegou, ou até já passou, a ponto de descredibilizar qualquer tentativa de transformação.

De acordo com a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o mapa da obesidade estima que, até 2025, existam 2,3 bilhões de adultos no mundo acima do peso, destes 700 milhões considerados obesos — ou seja, com índice de massa corporal (IMC) acima de 30. Já no Brasil, essa doença crônica aumentou 72% nos últimos treze anos, saindo de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019.

Sim, é uma questão de Saúde Pública.

É por isso que o Hospital Universitário do Oeste do Paraná entendeu que é possível ser esse “parceiro” de trajeto. O “túnel” é realmente longo, mas a luz no final está lá, em um processo inteiramente gratuito. Já são 13 anos do Serviço de Obesidade e Cirurgia Bariátrica do HUOP, com o objetivo de proporcionar saúde física e mental para cada paciente que sonha com a transformação: do momento da chegada ao hospital, passando pelo acompanhamento, pela realização da cirurgia bariátrica e, depois, pelo acompanhamento contínuo.

2023: o ano em que o mundo mudou para Kelly Donadel Barbosa.

Na verdade, a mudança aconteceu no mundo próprio da manicure de Cascavel que, em 6 de abril, passou pela bariátrica, após meses sendo atendida pelo programa oferecido pelo hospital.

Mãe, esposa, autônoma, Kelly imaginava que os 60 quilos a mais que carregava antes eram motivo de tantas dificuldades, mas não esperava o quanto a atual vida lhe proporcionaria momentos únicos.

“Nunca vou me esquecer, na primeira reunião, quando o Dr. Allan falou que operava o estômago e não a cabeça. Isso fez eu entender o quanto era importante todo esse acompanhamento. A cirurgia bariátrica mudou minha vida e da minha família, pois tudo que aprendi sobre bons hábitos aplico no meu dia a dia. E, com 60 kg a menos, tenho disposição para cuidar do meu esposo, filhos, cuidar do meu lar e evoluir até mesmo na minha profissão, que antes a obesidade me limitava”.

Kelly Donadel Barbosa, emagreceu 60 quilos, após passar por bariátrica oferecida via SUS, graças a um programa do HUOP. | Foto: Arquivo pessoal

Bariátrica – Esperança via SUS

São muitas esferas envolvidas: da saúde básica até chegar ao Hospital Universitário. Os pacientes começam com os encaminhamentos realizados pelas 9ª, 10ª e 20ª Regionais de Saúde do Paraná. Essas pessoas veem no programa a possibilidade de mudança de forma séria e no tempo que deve ser. No ano de 2023 foram realizadas mais de 20 cirurgias; em 2024, passaram de 60.

O Dr. Allan Cézar Faria de Araújo é quem orquestra o projeto e vê nos olhos de centenas de pacientes a busca — que beira a súplica — por ajuda.

“Essas intervenções são essenciais para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir os riscos associados à obesidade”, explica o coordenador do Serviço de Obesidade e Cirurgia Bariátrica do HUOP.

Ao todo, mais de 600 pacientes já passaram pelo grupo. Nem todos chegaram à cirurgia, que é sempre tratada com o grau de importância que merece. Valéria Dutra está nesse processo: chegou recentemente, aos 43 anos, e aguarda sua vez.

“Eu nunca fui uma pessoa magra. Sempre vivi com sobrepeso, mas estava tudo bem porque chegava ali aos 80/83 quilos. Após minha 1ª gestação fui aos 114 kg, emagreci logo após e fiquei entre 90/95, e me sentia bem. Não me via como obesa, pois ia para a academia, tinha flexibilidade, vivia na normalidade. Agora, na minha segunda gestação gemelar, fui para 132. Desde então, venho há 5 anos lutando para emagrecer e retomar a minha qualidade de vida”.

Um passo de cada vez, sempre amparados por uma equipe multidisciplinar, sinaliza o médico responsável pelo programa:

“São reuniões mensais. Os pacientes recebem um planejamento terapêutico desde o momento da entrada. Reuniões em grupo são realizadas regularmente, envolvendo uma equipe composta por médicos, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde. Além disso, avaliações individualizadas garantem que cada paciente receba o cuidado adequado às suas necessidades específicas”.

Por trás de cada novo paciente que chega ao programa, existem histórias de preconceito, dores, traumas, pessoas que até pensaram em desistir por não acreditarem ser possível vencer a obesidade. É por isso que, aliado ao trabalho de emagrecimento do corpo, são tratados como indivíduos — ouvidos e compreendidos.

Programa de Obesidade do HUOP, coordenado pelo médico Dr. Allan Cézar Faria de Araújo | Foto: Assessoria HUOP

Mônica Celis Stelmach Costa é psicóloga e tem um papel essencial no serviço oferecido pelo HUOP:

“Trabalhamos em modalidade de grupo terapêutico e atendimento específico ao processo de emagrecimento e qualidade de vida. Atendemos o paciente em sua integralidade, compreendendo de modo geral tudo que o indivíduo percebe que o afeta e, a partir deste processo clínico, vamos alinhando o que leva ao comportamento alimentar ou à estagnação na permanência da rotina em prol da saúde e qualidade de vida. Há uma relação entre as emoções e o emagrecimento; um não deveria depender do outro, mas, na prática, percebemos uma conexão. A comida ainda é ponto de vazão de muitas emoções — mas principalmente as negativas, as que são mais difíceis de serem elaboradas e faladas pelo indivíduo”.

Valéria, agora, busca a volta de uma mulher que foi adormecendo ao longo dos anos, se escondeu na rotina familiar, mas está prestes a ressurgir. Ela ainda não está preparada para mostrar o rosto, preferiu não aparecer, mas entende que isso logo mudará.

Bariátrica – Evolução na rede particular

As cirurgias bariátricas realizadas pelo Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP) são regulamentadas, disponibilizadas e financiadas pelo SUS – Sistema Único de Saúde. Sendo assim, ainda não são aplicadas as novas regras da resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) nº 2.429/2025, publicada em 25 de abril de 2025, que possibilita aos profissionais realizarem, por exemplo, cirurgias em pacientes com IMC (Índice de Massa Corporal) a partir de 30 — antes somente acima de 40 — e ainda a realização de bariátricas em adolescentes, a partir dos 14 anos, quando atenderem as determinações doCFM.

Resolução completa disponível aqui.

O Dr. Allan Araújo explica: “A nova resolução autoriza o ato médico, que é da competência do CFM, que se faça cirurgia para pacientes com IMC acima de 30 e adolescentes a partir de 14 anos. Porém, esta cobertura ainda não está regulamentada para o atendimento pelo Sistema Único de Saúde. Nós seguimos lutando para que todos tenham acesso a um melhor tratamento nas linhas de cuidado sobrepeso e obesidade”.

A enfermeira Thaisi Aparecida Leandro tem 36 anos e, durante toda a adolescência, enfrentou problemas com o sobrepeso, porém não se encaixava no IMC compatível para a bariátrica.

Em dezembro de 2024, já dentro do preconizado até então pelo CFM, decidiu realizar a cirurgia particular, possibilitada via plano de saúde. Ela optou pela bariátrica bypass — desvio gástrico que reduz o estômago e o intestino para promover a perda de peso, também conhecido como bypass gástrico.

Thaisi Aparecida realizou a cirurgia bariátrica de forma particular, após conviver com o sobrepeso desde a adolescência | Foto: Arquivo Pessoal

Para a enfermeira, as mudanças recentes são importantes, principalmente para quem convive com o sobrepeso por muito tempo:

“Se tivesse feito antes, teria descoberto que a bariátrica não é uma última tentativa, mas sim o recomeço da vida que sempre quis ter, aproveitada sem limitações em várias esferas. Ter energia para trabalhar, sair, ser mãe. Redescobrir o grande amor da vida: o amor próprio”, relata Thaisi, que emagreceu 28 quilos em pouco menos de 8 meses.

Seja na rede particular ou pública, a possibilidade de cirurgia bariátrica surge como uma transformação de vidas — pessoas que se reencontram, se redescobrem, quando amparadas por profissionais competentes e responsáveis por apresentarem mudanças que esses pacientes nem imaginavam ser possíveis.

Por: SOT/Thiago Leandro - Foto: Divulgação/Shutterstock

Leia Também

Utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.