01 de maio de 2026

Cascavel

Paraná

Fiep questiona índices de reajuste previstos na revisão tarifária da Copel Distribuição

Impactos para a indústria, que pode ter aumento de mais de 50% nas tarifas, foram ressaltados pela entidade durante audiência pública realizada pela ANEEL

Foto: Henrick Loyola

A Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) questionou, durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (29), em Curitiba, os índices de reajuste que estão sendo propostos para as tarifas de energia elétrica da Copel Distribuição. A audiência faz parte do processo de Revisão Tarifária Periódica 2026 da companhia paranaense, que prevê reajuste médio de 19,2% às diferentes classes de consumidores, chegando a mais de 50% para alguns segmentos de alta tensão, o que causará impactos expressivos nos custos de diversas atividades industriais. Caso sejam confirmados, os índices propostos entram em vigor a partir de 24 de junho.

Durante o encontro, que foi promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), o superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, explicou que a energia é, atualmente, o terceiro item que mais pesa nas planilhas de custos das indústrias, atrás somente dos gastos com matérias-primas e mão de obra. Por isso, ressaltou que a revisão tarifária nos patamares propostos – que, além dos 19,2% médios previstos para este ano, ainda indica uma projeção de mais 7% de aumento ficando para 2027, totalizando assim 26% de reajuste – será extremamente prejudicial para a indústria e para a economia paranaenses.

Diante desse cenário, a Fiep propôs à ANEEL algumas medidas para reduzir ou tornar mais justos os índices de reajustes. Uma delas é a busca por maior equilíbrio entre os percentuais previstos para diferentes níveis de consumidores do chamado Grupo A, de alta tensão, que inclui a indústria. “Esse grupo tem um reajuste de 45% para empresas do Grupo A3 (que recebe energia em 69 kV) e de 51% para o Grupo A2 (que recebe energia em 138 kV). Como essas empresas vão justificar isso? Como é que ela vai repassar isso para o preço do produto? Impossível, nós perderíamos competitividade”, disse Mohr. “Por isso sugerimos um rateio melhor (dos índices de reajuste) dentro do Grupo A”, acrescentou.

Expurgo de investimentos

Outro ponto questionado pela Fiep diz respeito ao peso que a compensação de investimentos realizados pela Copel nos últimos anos tem nos índices de reajuste propostos. Investimentos que, para a Federação, não têm alcançado seus objetivos de aprimorar a qualidade da distribuição de energia no estado e dos serviços prestados pela companhia.

Conforme Mohr indicou na audiência, somente em medidores inteligentes instalados nas unidades consumidoras, que teriam o propósito de reduzir o tempo de resposta da Copel em casos de problemas de fornecimento, a empresa teria investido quase R$ 1 bilhão. “Mas o que aconteceu na prática? O indicador que a própria ANEEL monitora, que é o tempo médio de resposta entre a Copel receber a ligação e disparar a equipe, passou de 150 minutos em 2021 para mais de 250 minutos em 2025, um aumento superior a 75%. Mesmo com um medidor inteligente, o tempo de resposta aumentou, mas devia ter diminuído”, explicou.

Outro investimento que, no entendimento da Fiep, não deveria ser levado em conta nesta revisão tarifária são os R$ 3,3 bilhões aplicados no projeto Paraná Trifásico, que tem o objetivo de melhorar a qualidade de fornecimento principalmente na área rural do estado, mas que afeta também a indústria. “Quando cai o rural, há uma oscilação de tensão na linha do industrial que derruba as nossas indústrias, por causa da instabilidade”, afirmou Mohr. Além disso, o superintendente destacou que, apesar do investimento expressivo, até o momento menos de 5% dos produtores rurais se ligaram à rede trifásica, não havendo perspectiva de aumento nesse percentual.

“Nós precisamos primeiro ter a melhoria concretizada para aí remunerar esse investimento. Isso não aconteceu até agora, então a gente pediu para que a ANEEL expurgue esses investimentos”, declarou Mohr, acrescentando que a Fiep classifica esses investimentos como não prudentes, pois não trouxeram os resultados esperados. Nos próximos dias, a Fiep irá formalizar suas propostas por escrito dentro da Consulta Pública da ANEEL em relação ao processo de revisão tarifária, que segue aberta até 22 de maio.

Impactos na competitividade

Representantes de setores da indústria e de cooperativas agroindustriais que participaram da audiência reforçaram o impacto que o reajuste nos patamares propostos vai representar para as atividades.

O diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná (Sindiavipar), Paulo Cândido, explicou que um reajuste de mais de 50% na tarifa de energia, que é o índice previsto para as empresas do setor, impacta toda a cadeia produtiva. “Desde o início, que é a produção no campo, até a indústria”, disse, ressaltando que, atualmente, a indústria avícola não dorme, trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana. “Nos frigoríficos há um consumo intenso de energia, então esse reajuste ocasionará, com certeza, inúmeros prejuízos para a avicultura do Paraná”, completou.

Cândido ressaltou, ainda, que as empresas do setor já atuam com margens extremamente apertadas, dificultando que os custos adicionais sejam repassados ao consumidor. “A dificuldade no repasse de custos é gigantesca. É um problema porque você não consegue assumir todos os gastos que são impostos em relação de embalagens, transporte, frete mínimo e energia e repassar isso para o consumidor, porque as margens são reduzidas”, explicou.

Silvio Krinski, coordenador da Gerência Técnica e Econômica do Sistema Ocepar, entidade que representa as cooperativas paranaenses, concorda que haverá dificuldades para repasse desse reajuste. “Se a gente for analisar apenas o impacto econômico, ele acaba sendo na ordem de R$ 20 milhões ao mês que vai onerar o custo de energia das cooperativas”, afirmou, explicando que o valor se refere somente aos gastos das plantas industriais dessas organizações. “Isso traz um problema para o segmento porque você tem um ajuste tão abrupto que não consegue repassar esse custo e isso acaba sendo incorporado pelas indústrias”, disse, acrescentando que é fundamental que o setor produtivo tenha previsibilidade em relação aos reajustes anuais das tarifas, não sendo surpreendido por índices tão elevados como os propostos para este ano.

Ele ressaltou, também, que os efeitos vão além da questão econômica. “Isso acaba tendo outros impactos não só dentro do próprio segmento, no setor produtivo e nas linhas de produção, mas na geração de renda e no próprio desenvolvimento das comunidades”, disse. Assim como a Fiep, o Sistema Ocepar também defendeu uma revisão nos reajustes propostos na revisão tarifária. “A gente precisa de uma conversa muito séria e muito transparente com a própria ANEEL”, disse, citando que pontos como os índices de aumento e a pertinência dos investimentos incluídos na tarifa devem ser reavaliados. Além disso, defendeu maior atenção da agência em relação à qualidade dos serviços que vêm sendo prestados pela companhia.

Por: SOT/Luiz Felipe Max - Foto: Henrick Loyola

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