Perito aponta maior responsabilidade da Voepass em acidente aéreo que matou 62 pessoas
O especialista afirmou ainda que falhas operacionais podem ocorrer em diferentes empresas do setor, mas ressaltou que esse tipo de conduta precisa ser combatido com rigor.
Quase dois anos após a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas após decolar de Cascavel e cair em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, um perito aeronáutico atribuiu a maior parte da responsabilidade pelo acidente à companhia aérea.
O professor e perito aeronáutico Daniel Kalazans, ex-integrante do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), afirmou que a Voepass responde por cerca de 60% da responsabilidade pelo desastre, enquanto os outros 40% recaem sobre a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Segundo Kalazans, a companhia assumiu o risco ao manter a aeronave em operação mesmo diante de falhas técnicas registradas em voos anteriores. Para ele, a empresa também cultivava uma prática de normalização de problemas operacionais, com registros sendo feitos apenas de forma verbal, sem o lançamento obrigatório no Diário de Bordo.
O especialista afirmou ainda que falhas operacionais podem ocorrer em diferentes empresas do setor, mas ressaltou que esse tipo de conduta precisa ser combatido com rigor. Na avaliação dele, as companhias aéreas devem cumprir as normas de segurança independentemente da atuação da fiscalização.
Críticas à atuação da Anac
Kalazans também direcionou críticas à Anac. Segundo ele, a agência deveria ter suspendido integralmente as operações da Voepass ao constatar problemas em grande parte da frota da empresa.
De acordo com o perito, em 2024 a agência chegou a retirar de operação oito das 15 aeronaves da companhia, mas permitiu que os voos continuassem. Para ele, diante desse cenário, seria mais adequado interromper totalmente as atividades até que todas as irregularidades fossem solucionadas.
Relatório do Cenipa
O relatório final do Cenipa apontou que a aeronave decolou de Cascavel com dez itens registrados na Lista Mínima de Equipamentos (MEL), documento que permite a operação temporária de aeronaves com determinados sistemas inoperantes, desde que sejam observadas restrições técnicas.
Entre os itens estava o limpador do para-brisa, cuja própria MEL proibia a decolagem caso houvesse previsão de chuva nas proximidades do horário do voo. O documento também revelou que a tripulação recebeu informações meteorológicas indicando possibilidade de formação de gelo severo durante a rota.
Além disso, o sistema de degelo da aeronave apresentou falhas nos três voos anteriores ao acidente. Segundo o relatório, essas panes não foram registradas oficialmente no Diário de Bordo, sendo comunicadas apenas verbalmente, prática considerada um dos fatores que contribuíram para o desastre.
Posicionamentos
Em nota, a Voepass afirmou que sempre atuou seguindo padrões internacionais de segurança, destacou que mantém certificação IOSA desde 2012 e informou que a tripulação possuía mais de cinco mil horas de voo, além de treinamentos e avaliações médicas em dia. A empresa também afirmou que colaborou com todas as investigações desde o início.
Já a Anac ressaltou que as investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter preventivo e não têm como objetivo atribuir responsabilidades. A agência informou que realizará uma análise técnica das recomendações apresentadas pela Força Aérea Brasileira (FAB), com prazo de até 120 dias para conclusão. Também lembrou que suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e, posteriormente, cassou o Certificado de Operador Aéreo da companhia em junho do mesmo ano.